domingo, 24 de maio de 2015

Licença, mas não me basta a máxima


Diz-se que ser inteligente é saber dar as respostas certas às perguntas formuladas, quase que numa sintonia perfeita entre quem indaga ou questiona e quem se propõe a responder. Todavia, seria mesmo essa definição a mais correta?
Penso que não, aliás, penso como aqueles que fundamentadamente pensam que não. Ser inteligente é mais que dar respostas certas. Ser inteligente é saber formular as perguntas oportunas por força das circunstâncias que direta ou indiretamente provocam o tino, seja pela observação simples ou pela observação perplexa.
Sendo assim, e não querendo reduzir-me a um raciocínio lógico qualquer, proponho uma questão simples, e concomitantemente complexa, que suscitará as mais assombrosas divagações, as mais necessárias elucubrações: será que eu existo?
Não pense, caro leitor, que esta simples questão não possa proporcionar horas e horas a fio de discussões quando nos volvemos para a história da filosofia; ou mesmo a previsibilidade da solução naqueles casos em que somos surpreendidos com a resposta automática (e sintomática) de sempre: sim, você existe.
É diante dessa previsibilidade da resposta, não raro, como disse, automática, que devo partir com um denodo necessário para questionar a autoridade de Descartes, quase que numa clivagem epistemológica para ao final concluir que sua resposta, por si só, não me satisfaz (embora isso não seja absolutamente importante, confesso).
Explico.
Está claro que o insigne filósofo francês ao formular sua famosa frase “Penso, logo existo” empreendeu uma busca acirrada do “eu” ou da prova de sua existência, jungindo-a, basicamente, à possibilidade de se pensar. Pensar sobre algo, dado que apenas o ato dúbio seria indubitável.
Decerto, esta atmosfera filosófica não é a das mais agradáveis, e, pior, não responde minha questão de uma maneira satisfatória, e para deixar claro que de fato a epistemologia cartesiana não amaina meus males da alma, permita-me esclarecer o porquê.
A máxima cartesiana acima mencionada reduz o “eu” a uma entidade absoluta, isto é, a um ser permanente ou imutável de essência inerte e inconteste. Porém, será mesmo que isso é verdade? Será que isso é provável, segundo o próprio pensamento cartesiano?
Penso que não.
Perceba, nobre leitor, que você nunca foi você e nem sempre assim o será. Isso é óbvio, ora pois! Certo, mas se de fato o é, não existe o “eu”, ou, uma identidade qualquer. Somos seres mutáveis e contingenciais, fadados à interpretação da realidade, despidos de qualquer essência inerte ou inconteste.
Talvez a forma mais clara de esclarecer essa perspectiva a que me detive seja mostrar a existência de uma vida pública e de uma vida privada.  Estou certo de que assim como eu, caro leitor, você não age de igual forma no meio público como no meio privado (nem mesmo no meio privado você sempre agirá e pensará de um mesmo modo), pelo fato da moral à qual estarmos sujeitos impor um conjunto de valores para as condutas que temos. Tanto é assim que, diante de alguém desconhecido agimos de um modo completamente diferente quando comparado com alguém de nosso círculo de convivência. É dizer, o diferente condicionou nosso comportamento. O comum, ordinário ou cotidiano nos consigna uma margem ampla de possibilidades de modos de agir.
Portanto, nesse breve circuito que expus, mostrei de uma maneira um tanto simplória como nossa identidade simplesmente não existe. Nem mesmo nossa identidade fenotípica, pois será que somos um Orlando do belo romance de Virgínia Woolf, que não saboreia o transcorrer do tempo? Ou seja, será que não envelhecemos e não mudamos nossa compleição?
Ferreira Gullar em um de seus poemas, dos quais gosto muito – Traduzir-se-, termina-o com cinco versos que resumem todo o pensamento vertido nos versos anteriores: “Traduzir-se uma parte/noutra parte/-que é uma questão/de vida ou morte-/será arte?”.
Para você que não se permitiu, ainda, ler o poema mencionado, vislumbra-se nele a bipartição clara do ser, ou seja, o desenvolvimento irrefragável da existência de duas partes sutilmente antagônicas do poeta, que ao final, como visto acima, se indaga acerca da grande questão de sua existência, qual seja, se seria uma arte conseguir relacionar as partes de que é feito, quase que numa tentativa clara de criar sua identidade.
Ou seja, reitero a pergunta: onde está o “eu”? Será que este “eu” que aqui por ora escreve e divaga, será o mesmo amanhã? A obviedade que acomete o discurso é fulgurante, mas será que passou a ser apenas agora? Enfim, não me convenci com a máxima de Descartes, e, por talvez nunca poder chegar a uma resposta clara a respeito, contento-me com o fato de que não, eu não existo, e isso me basta.
Se meu existencialismo pode ser acoplado à filosofia de Sartre ou de Osho, não sei. Apenas sei que ambos contribuíram a seu modo para que eu não mais aceitasse o “Cogito, ergo sum” ou o tão afamado “Penso, logo existo”. 

quarta-feira, 13 de maio de 2015

BRINCAR DE IMAGINAR

Brincar de imaginar é algo tão prazeroso e necessário que o caminho mais profícuo para tanto seja, talvez, a literatura.
Sendo assim, querendo proporcionar-lhe um pouco deste momento lúdico, convido-o à leitura não muito longa deste pequeno conto de minha autoria.
Seja bem vindo.


CONTOS DE PADARIA

Dizem que as crianças são tão curiosas que os adultos devem sempre estar preparados e em alerta para a inteligência dos pequeninos. Talvez seja isso que tenha acontecido naquele fim de tarde no morro do São Bento na pequena cidade da Glória.

Mauro, um senhor já de anos consumidos, à beira de seus oitenta, não deixava de cumprir com seu dever matinal. Todos na padaria do seu Juca sabiam de há muito que o bom velhinho, hoje viúvo e aposentado, via o café da manhã de cada dia como o grande momento do dia, já que sua indiferença pela vida estava tão patente ultimamente, que seus amigos do Juca percebiam que o velho estava adquirindo um semblante taciturno, o que não era de costume, já que não havia uma manhã que ele não reclamasse dos poucos soldos que recebia do governo para sua sobrevivência, bem como não deixava de rememorar sua vida nos lábios já murchos e enrugados. 

Claro, naquela altura todos já haviam feito um inventário da vida de seu Mauro, pois conforme envelhecia a memória diminuía como que um corpo em sua velocidade retrógrada e assim, apesar de contar fatos já contados, seu Juca e os outros respeitavam suas estórias como que na esperança de que se denunciasse a cada nova conversa algum fato antes escapulido.

Naquela manhã, o papo começara com o périplo que seu Mauro houvera feito com sua falecida esposa no jirau do Ardor e explicava a todos o porquê de se chamar assim aquele famoso jirau de Siprocó, sua cidadezinha natal.

Disse e redisse que ambos tinham feito um piquenique maravilhoso e que na tarde, depois de um copioso cochilo, decidiram caminhar pela vereda de terra que se estendia entre os outeiros, onde viviam ainda alguns amigos de infância e que vez ou outra os encontravam carpindo o capim ao som dos sabiás que pairavam na paisagem bucólica e verde.

Quando começou a descrever a casa de um de seus amigos e quão vetusta a mesma era, eis que aparece na padaria do Juca o Nelsinho, neto da dona Eumara, também viúva. Eram novos ali, e viviam apenas os dois numa pequena casa de alvenaria enxertada na cidade da Glória, já que distante do centro. Os comentários ou fuxicos que havia era que o menino tinha perdido os pais em um acidente de carro, quando ainda recém-nascido, e que a avó, para tentar esquecer ou apagar o triste fato, decidiu-se mudar da antiga casa, que ficava na cidade de São Leopoldo. Tudo, obviamente, não passava de especulação, já que dona Eumara sempre estava emudecida, e seu neto, apesar de brincar com os outros garotos da Glória, contava-lhes que apenas sabia que seus pais tinham falecido por conta de uma doença.

Ao entrar na padaria, seu Juca, como que de chofre, o vê e indaga:

- Ora, menino, o que vens fazer aqui tão cedo? Dona Eumara lhe puxou da cama, foi?

- Não, seu Juca, hoje minha avó me pediu para vir buscar os dois pães e a garrafa de leite porque ela está com muita dor de pernas – redargüiu o menino.

Enquanto seu Juca empacotava os pães, o menino olhava para o seu Mauro e via como o velho estava sério e olhando para ele, como que se quisesse devorá-lo pelo olhar demasiado cansado. Mas, esperto e curioso como sempre, Nelsinho disse ao bom velhinho:

- Olá! Meu nome é Nelson, mas minha avó me chama de Nelsinho. Mudei para Glória faz pouco tempo.

- Ora, menino, não me atormentes – disse Mauro em um tom de impaciência.

Foi quando após esta abrupta resposta do velho, que Nelsinho percebeu que Mauro tinha uma fotografia por entre a algibeira de seu casaco velho cor camurça, e que pendia para fora, quase que caindo, e lhe disse:

- Nossa! Tem uma foto do bolso do senhor que está quase caindo.

E quando virou a cabeça para vê-la, seu Mauro displicentemente balançou o corpo e fez com que a foto caísse ao chão, com um fulgor inaudível.

-Pronto, caiu – disse o menino em tom de risada, - deixe que eu a pegue para o senhor.

Quando a pegou, viu que era a foto dele e de sua falecida esposa, e que ambos estavam próximos a um jirau, ele com tralhas de pesca e ela com uma cesta de palha verde na mão direita. Disse ainda que os dois estavam sorrindo e que pareciam muito feliz.

- Dê-me isso moleque, isso não é coisa que o valha – disse Mauro, - mas... sim, nesse dia estávamos eu e minha esposa no jirau do Ardor, fazendo um piquenique – e continuou a falar com a criança com seus olhos cheios de pés de galinha nas beiras e que brilhavam fulgurantemente enquanto olhava para a foto.

- Por que o senhor está chorando? - disse Nelsinho.

- Você é só um menino. Nunca vai entender o que um velho como eu está sentido agora – retrucou o senil.

-Deixa-me te mostrar uma foto que sempre carrego comigo – disse o garoto enquanto tirava uma foto do bolso de sua calça velha e um pouco desbotada – Veja! Esses são meus pais, e este no colo da minha mãe sou eu. Acho que eu tinha acabado de nascer.

- Onde estão seus pais, menino? – perguntou seu Mauro.

- Minha avó disse-me que eles morreram dias depois que essa foto foi tirada e que hoje eles são duas estrelas que vivem no céu, para que eu sempre possa vê-los e saber que apesar de tudo eles brilham para mim. Infelizmente não me lembro deles. Mas, sabe de uma coisa?! – falou em tom perspicaz o pequenino – acho que às vezes me lembro do cheiro do perfume de minha mãe. Minha avó diz que é só impressão, mas eu não acredito.

Atento para o que o menino contava, seu Mauro puxou um lenço cinzento do bolso esquerdo, e passou sobre os olhos. Tinha se emocionado com aquilo que o menino lhe contara. Chorou porque começou a perceber que sua vida fora completa e deixou de sê-la apenas muito tempo depois. Todavia, observou que a vida daquela criança começara incompleta e findar-se-ia incompleta, já que não há vida que termine completa, embora a regra seja que se inicie assim.

No entanto, há exceções. Tristes exceções, tais quais a do pequeno Nelson que tinha entrado naquela manhã na padaria do seu Juca. Tem o amor da avó Eumara, mas jamais degustará o beijo do pai ou da mãe na bochecha rosada que mantinha.

- Quantos anos tem, filho? Indagou Mauro ao menino.

- Sete anos – respondeu Nelsinho.

- Sabe o que é um jirau? Conhece o jirau do Ardor? Sabe porque tem esse nome? Perguntou o bom velhinho.

E assim, ficou o menino ali sentado a manhã toda, e perguntava de tudo e de todos, e seu Mauro, contador de estórias como ninguém, respondia suas perguntas, ora com dificuldade, ora com prontidão.

Todos na padaria, por já conhecerem as estórias do velho, partiram para a rotina que os aguardavam, menos seu Juca, que ficou encantado como duas gerações tão diferentes poderiam ser tão parecidas, e como com boas conversas, duas vidas incompletas estavam se completando.

Seu Mauro, claro, repetia suas estórias. Mas, no afã da criança em querer saber de tudo e de todos, contava com tamanha felicidade que já não se via mais naquele momento a face taciturna e sisuda do velho. Seu Juca até percebeu que fatos novos foram surgindo durante a conversa e por assim ser começou a emprestar mais atenção à prosa que se estendia já há mais de meio dia.

Quando ainda papeavam, dona Eumara apareceu na porta da padaria. Cumprimentou seu Juca e gritou por Nelsinho que quase a matara de preocupação.

Seu Mauro se desculpou e disse à avó do menino que a culpa fora dele e que gostaria de levar o menino ao jirau do Ardor.

-Jirau do Ardor? - retrucou dona Eumara.

- Sim – respondeu Mauro.

- Poxa vida, conheço esse famoso jirau de Siprocó. Passei minha infância correndo por entre aqueles outeiros.

- Sério? - exclamou seu Mauro.

E assim, a conversa continuou e depois de se despedirem e seu Juca ter puxado as pesadas portas da padaria do morro do São Bento, já haviam firmado os três – o velho Mauro, o serelepe Nelsinho e a farta dona Eumara que eles iriam no próximo dia ao jirau do Ardor.

A noite caiu na cidade da Glória e o fim dessa estória só descobrirão os assíduos freqüentadores da padaria do seu Juca que no café da manhã de um dia qualquer saberão sobre esse outro conto de padaria.




terça-feira, 12 de maio de 2015

Que blog é esse? 

Preciso deixar clara uma coisa: sou daqueles que gosta de expor a própria opinião a respeito de um determinado tema; daqueles que se permite, na medida do possível e dentro dos limites do razoável, a se posicionar a respeito de uma informação ou de um assunto qualquer. Ou ainda, de brincar de ser poeta ou um pretenso contador de estórias.
As razões são várias, e decerto não deva elencá-las uma a uma sob pena de incorrer em um gesto enfadonho e demasiado inútil. Mas, talvez, a razão primeira seja a necessidade intrínseca de comunicar idéias. Gosto das elucubrações, sobretudo quando erigidas naqueles pontos mais ordinários ou banais o possível (embora tudo, ao fim  e ao cabo, seja um ponto de vista, até o ser banal).
Não me arrogo o título de filósofo, visto que não tenho formação para tanto, embora do ponto de vista etimológico da palavra me considere um amante da sabedoria. 
Exponho minhas opiniões não apenas quando divorciadas por completo de um traço emotivo, mas também não posso afirmar ser o senhor piegas, que tributa suas lágrimas, sem parcimônia, a todo e qualquer evento e momento. Há de haver a realidade, e há de haver a poesia. 
Assim, por ser provavelmente uma espécie de ensaísta nada ortodoxo, caminho por entre estas plagas, buscando compartilhar as idéias e sensações que me perturbam o tino, seja na prosa ou na poesia.
Diante disso, criei esse blog, este microespaço no qual posso verter palavras no gozo da mais pura liberdade; almejando, sempre que possível, comunicar-me com qualquer interlocutor. 
Gosto de debates, conversas e de ouvir opiniões alheias. Admiro a retórica e o argumento persuasivo, além de compreender que qualquer sinal de verdade apenas decorra de um discurso intersubjetivo ou de uma boa conversa. Por isso: "colóquio".
Colóquio por ser demasiado gratificante estabelecer qualquer vínculo com aquele que leia meus textos; uma conversa, ainda que imaterial. 
Agora, por ser uma conversa potencial; por ser um diálogo em potência, já que publicarei textos, como disse, com o objetivo de comunicar idéias e sensações, é natural que talvez não haja nenhum interlocutor, embora creio que haja algum leitor. Ora, a natureza do colóquio é justamente a conversa, um vínculo dialógico. Como a internet é imanentemente imaterial, qualquer colóquio por meio dela há de ser impróprio. Assim, eis meu blog. Eis o "Colóquios Impróprios". 
Buscarei, sempre que possível, reitero, traduzir em textos aquilo que penso e sinto, numa espécie de microensaio e aguardo, se possível, que aqueles que se identifiquem com meus escritos sintam-se à vontade em bater nas portas do diálogo. 
Debatamos o que for preciso. 
Nada como um bom papo num mundo onde são diversos os empecilhos. Quem sabe aqui não haja um sinal de divergência salutar? E que assim seja.