Licença, mas não me basta a
máxima
Diz-se que ser inteligente é
saber dar as respostas certas às perguntas formuladas, quase que numa sintonia
perfeita entre quem indaga ou questiona e quem se propõe a responder. Todavia,
seria mesmo essa definição a mais correta?
Penso que não, aliás, penso como
aqueles que fundamentadamente pensam que não. Ser inteligente é mais que dar
respostas certas. Ser inteligente é saber formular as perguntas oportunas por
força das circunstâncias que direta ou indiretamente provocam o tino, seja pela
observação simples ou pela observação perplexa.
Sendo assim, e não querendo
reduzir-me a um raciocínio lógico qualquer, proponho uma questão simples, e
concomitantemente complexa, que suscitará as mais assombrosas divagações, as
mais necessárias elucubrações: será que eu existo?
Não pense, caro leitor, que esta
simples questão não possa proporcionar horas e horas a fio de discussões quando
nos volvemos para a história da filosofia; ou mesmo a previsibilidade da solução
naqueles casos em que somos surpreendidos com a resposta automática (e
sintomática) de sempre: sim, você existe.
É diante dessa previsibilidade da
resposta, não raro, como disse, automática, que devo partir com um denodo necessário
para questionar a autoridade de Descartes, quase que numa clivagem
epistemológica para ao final concluir que sua resposta, por si só, não me
satisfaz (embora isso não seja absolutamente importante, confesso).
Explico.
Está claro que o insigne filósofo
francês ao formular sua famosa frase “Penso, logo existo” empreendeu uma busca
acirrada do “eu” ou da prova de sua existência, jungindo-a, basicamente, à
possibilidade de se pensar. Pensar sobre algo, dado que apenas o ato dúbio
seria indubitável.
Decerto, esta atmosfera
filosófica não é a das mais agradáveis, e, pior, não responde minha questão de
uma maneira satisfatória, e para deixar claro que de fato a epistemologia
cartesiana não amaina meus males da alma, permita-me esclarecer o porquê.
A máxima cartesiana acima
mencionada reduz o “eu” a uma entidade absoluta, isto é, a um ser permanente ou
imutável de essência inerte e inconteste. Porém, será mesmo que isso é verdade?
Será que isso é provável, segundo o próprio pensamento cartesiano?
Penso que não.
Perceba, nobre leitor, que você
nunca foi você e nem sempre assim o será. Isso é óbvio, ora pois! Certo, mas se
de fato o é, não existe o “eu”, ou, uma identidade qualquer. Somos seres
mutáveis e contingenciais, fadados à interpretação da realidade, despidos de
qualquer essência inerte ou inconteste.
Talvez a forma mais clara de
esclarecer essa perspectiva a que me detive seja mostrar a existência de
uma vida pública e de uma vida privada.
Estou certo de que assim como eu, caro leitor, você não age de igual
forma no meio público como no meio privado (nem mesmo no meio privado você sempre
agirá e pensará de um mesmo modo), pelo fato da moral à qual estarmos sujeitos
impor um conjunto de valores para as condutas que temos. Tanto é assim que,
diante de alguém desconhecido agimos de um modo completamente diferente quando
comparado com alguém de nosso círculo de convivência. É dizer, o diferente
condicionou nosso comportamento. O comum, ordinário ou cotidiano nos consigna
uma margem ampla de possibilidades de modos de agir.
Portanto, nesse breve circuito
que expus, mostrei de uma maneira um tanto simplória como nossa identidade
simplesmente não existe. Nem mesmo nossa identidade fenotípica, pois será que
somos um Orlando do belo romance de Virgínia Woolf, que não saboreia o
transcorrer do tempo? Ou seja, será que não envelhecemos e não mudamos nossa
compleição?
Ferreira Gullar em um de seus
poemas, dos quais gosto muito – Traduzir-se-, termina-o com cinco versos que
resumem todo o pensamento vertido nos versos anteriores: “Traduzir-se uma
parte/noutra parte/-que é uma questão/de vida ou morte-/será arte?”.
Para você que
não se permitiu, ainda, ler o poema mencionado, vislumbra-se nele a bipartição
clara do ser, ou seja, o desenvolvimento irrefragável da existência de duas
partes sutilmente antagônicas do poeta, que ao final, como visto acima, se
indaga acerca da grande questão de sua existência, qual seja, se seria uma arte
conseguir relacionar as partes de que é feito, quase que numa tentativa clara
de criar sua identidade.
Ou seja, reitero a pergunta: onde
está o “eu”? Será que este “eu” que aqui por ora escreve e divaga, será o mesmo
amanhã? A obviedade que acomete o discurso é fulgurante, mas será que passou a
ser apenas agora? Enfim, não me convenci com a máxima de Descartes, e, por
talvez nunca poder chegar a uma resposta clara a respeito, contento-me com o
fato de que não, eu não existo, e isso me basta.
Se meu existencialismo pode ser
acoplado à filosofia de Sartre ou de Osho, não sei. Apenas sei que ambos
contribuíram a seu modo para que eu não mais aceitasse o “Cogito, ergo sum”
ou o tão afamado “Penso, logo existo”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário