Brincar de imaginar é algo tão prazeroso e necessário que o caminho mais profícuo para tanto seja, talvez, a literatura.
Sendo assim, querendo proporcionar-lhe um pouco deste momento lúdico, convido-o à leitura não muito longa deste pequeno conto de minha autoria.
Seja bem vindo.
CONTOS DE PADARIA
Dizem que as crianças são tão
curiosas que os adultos devem sempre estar preparados e em alerta para a
inteligência dos pequeninos. Talvez seja isso que tenha acontecido naquele fim
de tarde no morro do São Bento na pequena cidade da Glória.
Mauro, um senhor já de anos
consumidos, à beira de seus oitenta, não deixava de cumprir com seu dever
matinal. Todos na padaria do seu Juca sabiam de há muito que o bom velhinho,
hoje viúvo e aposentado, via o café da manhã de cada dia como o grande momento
do dia, já que sua indiferença pela vida estava tão patente ultimamente, que
seus amigos do Juca percebiam que o velho estava adquirindo um semblante
taciturno, o que não era de costume, já que não havia uma manhã que ele não
reclamasse dos poucos soldos que recebia do governo para sua sobrevivência, bem
como não deixava de rememorar sua vida nos lábios já murchos e enrugados.
Claro, naquela altura todos já
haviam feito um inventário da vida de seu Mauro, pois conforme envelhecia a
memória diminuía como que um corpo em sua velocidade retrógrada e assim, apesar
de contar fatos já contados, seu Juca e os outros respeitavam suas estórias
como que na esperança de que se denunciasse a cada nova conversa algum fato
antes escapulido.
Naquela manhã, o papo começara
com o périplo que seu Mauro houvera feito com sua falecida esposa no jirau do
Ardor e explicava a todos o porquê de se chamar assim aquele famoso jirau de
Siprocó, sua cidadezinha natal.
Disse e redisse que ambos tinham feito um piquenique maravilhoso e que na tarde, depois de um copioso cochilo, decidiram caminhar pela vereda de terra que se estendia entre os outeiros, onde viviam ainda alguns amigos de infância e que vez ou outra os encontravam carpindo o capim ao som dos sabiás que pairavam na paisagem bucólica e verde.
Disse e redisse que ambos tinham feito um piquenique maravilhoso e que na tarde, depois de um copioso cochilo, decidiram caminhar pela vereda de terra que se estendia entre os outeiros, onde viviam ainda alguns amigos de infância e que vez ou outra os encontravam carpindo o capim ao som dos sabiás que pairavam na paisagem bucólica e verde.
Quando começou a descrever a casa de um de seus amigos e quão vetusta a mesma era, eis que aparece na padaria do
Juca o Nelsinho, neto da dona Eumara, também viúva. Eram novos ali, e viviam
apenas os dois numa pequena casa de alvenaria enxertada na cidade da Glória, já
que distante do centro. Os comentários ou fuxicos que havia era que o menino
tinha perdido os pais em um acidente de carro, quando ainda recém-nascido, e
que a avó, para tentar esquecer ou apagar o triste fato, decidiu-se mudar da antiga
casa, que ficava na cidade de São Leopoldo. Tudo, obviamente, não passava de
especulação, já que dona Eumara sempre estava emudecida, e seu neto, apesar de
brincar com os outros garotos da Glória, contava-lhes que apenas sabia que seus
pais tinham falecido por conta de uma doença.
Ao entrar na padaria, seu Juca, como que de chofre, o vê e indaga:
- Ora, menino, o que vens fazer
aqui tão cedo? Dona Eumara lhe puxou da cama, foi?
- Não, seu Juca, hoje minha avó
me pediu para vir buscar os dois pães e a garrafa de leite porque ela está com
muita dor de pernas – redargüiu o menino.
Enquanto seu Juca empacotava os
pães, o menino olhava para o seu Mauro e via como o velho estava sério e
olhando para ele, como que se quisesse devorá-lo pelo olhar demasiado cansado.
Mas, esperto e curioso como sempre, Nelsinho disse ao bom velhinho:
- Olá! Meu nome é Nelson, mas
minha avó me chama de Nelsinho. Mudei para Glória faz pouco tempo.
- Ora, menino, não me atormentes
– disse Mauro em um tom de impaciência.
Foi quando após esta abrupta
resposta do velho, que Nelsinho percebeu que Mauro tinha uma fotografia por
entre a algibeira de seu casaco velho cor camurça, e que pendia para fora,
quase que caindo, e lhe disse:
- Nossa! Tem uma foto do bolso do
senhor que está quase caindo.
E quando virou a cabeça para
vê-la, seu Mauro displicentemente balançou o corpo e fez com que a foto caísse
ao chão, com um fulgor inaudível.
-Pronto, caiu – disse o menino em
tom de risada, - deixe que eu a pegue para o senhor.
Quando a pegou, viu que era a
foto dele e de sua falecida esposa, e que ambos estavam próximos a um jirau,
ele com tralhas de pesca e ela com uma cesta de palha verde na mão direita.
Disse ainda que os dois estavam sorrindo e que pareciam muito feliz.
- Dê-me isso moleque, isso não é
coisa que o valha – disse Mauro, - mas... sim, nesse dia estávamos eu e minha
esposa no jirau do Ardor, fazendo um piquenique – e continuou a falar com a
criança com seus olhos cheios de pés de galinha nas beiras e que brilhavam fulgurantemente enquanto olhava para a foto.
- Por que o senhor está chorando?
- disse Nelsinho.
- Você é só um menino. Nunca vai
entender o que um velho como eu está sentido agora – retrucou o senil.
-Deixa-me te mostrar uma foto que
sempre carrego comigo – disse o garoto enquanto tirava uma foto do bolso de sua
calça velha e um pouco desbotada – Veja! Esses são meus pais, e este no colo da
minha mãe sou eu. Acho que eu tinha acabado de nascer.
- Onde estão seus pais, menino? –
perguntou seu Mauro.
- Minha avó disse-me que eles
morreram dias depois que essa foto foi tirada e que hoje eles são duas estrelas
que vivem no céu, para que eu sempre possa vê-los e saber que apesar de tudo
eles brilham para mim. Infelizmente não me lembro deles. Mas, sabe de uma
coisa?! – falou em tom perspicaz o pequenino – acho que às vezes me lembro do
cheiro do perfume de minha mãe. Minha avó diz que é só impressão, mas eu não
acredito.
Atento para o que o menino
contava, seu Mauro puxou um lenço cinzento do bolso esquerdo, e passou sobre os
olhos. Tinha se emocionado com aquilo que o menino lhe contara. Chorou porque
começou a perceber que sua vida fora completa e deixou de sê-la apenas muito
tempo depois. Todavia, observou que a vida daquela criança começara incompleta
e findar-se-ia incompleta, já que não há vida que termine completa, embora a
regra seja que se inicie assim.
No entanto, há exceções. Tristes
exceções, tais quais a do pequeno Nelson que tinha entrado naquela manhã na
padaria do seu Juca. Tem o amor da avó Eumara, mas jamais degustará o beijo do
pai ou da mãe na bochecha rosada que mantinha.
- Quantos anos tem, filho?
Indagou Mauro ao menino.
- Sete anos – respondeu Nelsinho.
- Sabe o que é um jirau? Conhece
o jirau do Ardor? Sabe porque tem esse nome? Perguntou o bom velhinho.
E assim, ficou o menino ali
sentado a manhã toda, e perguntava de tudo e de todos, e seu Mauro, contador de
estórias como ninguém, respondia suas perguntas, ora com dificuldade, ora com
prontidão.
Todos na padaria, por já conhecerem as estórias do velho, partiram para a rotina que os aguardavam, menos seu Juca, que ficou encantado como duas gerações tão diferentes poderiam ser tão parecidas, e como com boas conversas, duas vidas incompletas estavam se completando.
Todos na padaria, por já conhecerem as estórias do velho, partiram para a rotina que os aguardavam, menos seu Juca, que ficou encantado como duas gerações tão diferentes poderiam ser tão parecidas, e como com boas conversas, duas vidas incompletas estavam se completando.
Seu Mauro, claro, repetia suas estórias.
Mas, no afã da criança em querer saber de tudo e de todos, contava com tamanha
felicidade que já não se via mais naquele momento a face taciturna e sisuda do
velho. Seu Juca até percebeu que fatos novos foram surgindo durante a conversa
e por assim ser começou a emprestar mais atenção à prosa que se estendia já há
mais de meio dia.
Quando ainda papeavam, dona
Eumara apareceu na porta da padaria. Cumprimentou seu Juca e gritou por
Nelsinho que quase a matara de preocupação.
Seu Mauro se desculpou e disse à
avó do menino que a culpa fora dele e que gostaria de levar o menino ao jirau
do Ardor.
-Jirau do Ardor? - retrucou dona
Eumara.
- Sim – respondeu Mauro.
- Poxa vida, conheço esse famoso
jirau de Siprocó. Passei minha infância correndo por entre aqueles outeiros.
- Sério? - exclamou seu Mauro.
E assim, a conversa continuou e
depois de se despedirem e seu Juca ter puxado as pesadas portas da padaria do
morro do São Bento, já haviam firmado os três – o velho Mauro, o serelepe
Nelsinho e a farta dona Eumara que eles iriam no próximo dia ao jirau do Ardor.
A noite caiu na cidade da Glória
e o fim dessa estória só descobrirão os assíduos freqüentadores da padaria do
seu Juca que no café da manhã de um dia qualquer saberão sobre esse outro conto
de padaria.
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